sábado, 14 de novembro de 2009

ENTREGA

Minha pitonisa vem me hipnotiza.
Anjo me encanta.
Quero o teu canto que me alucina,
Esse veneno que cega, e me contamina.
Que não tem remédio,
E pra este mal não quero vacina.
Estrela da manhã,
É bom ouvir Djavan.
Curtir o Francis Hime,
Beber até um Daime, pra ficar contigo.
Quero me entregar e pra te amar,
Exponho minha pele.
Te entrego meu peito, arrisco meu umbigo.
Me infiltro num clã,
E corro perigo.


Kiko Azevedo 20/11/03

OLHAR DE TOLO

O nosso amor é um encontro de astros.
Um eclipse que cega o olhar dos tolos,
Que teimam em olhá-lo
Sem as lentes da paixão.
Causando um movimento na galáxia.
Ouvem-se os sons deste encontro.
E a melodia provoca a Lua,
Que antes testemunha não resiste.
Tira o vestido prateado,
Toma o Sol em seus braços
E o cobre de beijos.
O calor da cena contagia Mercúrio,
Que pede a Vênus uma canção de amor.
Marte ruborizado se esconde,
Pedindo a Saturno que empreste os anéis
Para selar este romance,
Deixando Netuno gelado de ciúmes.
Urano, testemunha silenciosa,
Convida Júpiter a falar de seus segredos e mistérios.
Plutão permanece sombrio e distante.
E a Terra, sempre alegre,
A tudo assiste muda de inveja,
Se derramando em lágrimas.


Kiko Azevedo 09 / 03 / 2004

sábado, 17 de outubro de 2009

FOTO

Cumplicidade da esperança criativa,
Antro da política “viva”.
A cidade da Esperança que não morre,
Que recria do pó, queixadas e gurias.
Explosão de Lixo e poesia,
Baixo vôo da cultura RH positívo.
Arena de lobos e gaivotas,
Dos conflitos e concertos,
De paraguaios e baianos.
Centro do globo e da música,
Da dança da Vênus cigana.
Boca do lixo, língua de trapo,
Dedo duro que fere as cordas do meu coração,
Violando o interminável e impossível sonho deste “povo esperança”.



Kiko Azevedo 11 / 08 / 2002

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

PAU BRASIL

As crianças brincam sob as árvores;
Uns sonham que são generais
E de suas trincheiras
Fazem discursos inflamados
Defendendo o país.
O capitão conduz a nau Catarineta
Cantando o romance de Catirina e Birico,
Alguns falam de um reino encantado
Onde as riquezas são de todos,
Um é o próprio Drummond
No fazer dos versos.
Tem o que ama a princesa mais linda,
E a princesa que ama o plebeu.
Outro incorpora Cícero,
Sobe no banco e discursa longamente
Sobre política e a queda da bolsa.
E ainda chega o Conselheiro
Avisando que o sertão vai virar mar,
Nisso o mais exaltado pede outro tira-gosto:
É picado, feijoada ou chambaril?


Kiko Azevedo 22 / 09 / 2009

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

LIÇÕES

Busco no corpo as imagens da juventude,
O frescor da pele,
Os primeiros pelos,
O brilho dos olhos.
Encontro os sonhos,
As primeiras lições,
O despertar do amor,
O desejo.
As cicatrizes,
A busca de caminhos,
As dúvidas.
Os tombos,
Feridas que logo cicatrizam,
Marcas das travessuras.
Os pelos incomodam,
O desejo ainda é forte,
Os olhos brilham mais forte
Pelo encontro do amor.
As lições e os caminhos da vida
Trouxeram o aprendizado
E as cicatrizes.
A pele já dá sinais de cansaço,
Continuo sonhando,
Aprendendo,
Caindo e em dúvida.

KIKO AZEVEDO 01 / 09 / 2009

terça-feira, 1 de setembro de 2009

NOVEMBRO

É Novembro!
Um dia quente de primavera,
É Novembro,
E o fogo do meu peito,
Bastaria para queimar
Todos os canaviais das Alagoas.
Estás longe, finda a tarde.
Nas curvas do Pilar
Lembro as tuas.
Meu peito arde.
É Novembro!
Tua foto é um aceiro,
Não deixa o fogo
Tomar todo meu corpo.
Tua voz um aguaceiro
A contê-lo.
O toque de tua mão,
É banhar-me no Gunga.
Beijar teus lábios,
É mergulhar na Mundaú.
Kiko Azevedo 11 / 2006

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

DOENÇA CONTAGIOSA

Não sou do contra
Apenas não suporto
Falsos sorrisos, desejos de bom dia
Quando no íntimo se quer dizer
“Vá à puta que pariu”
Não sei ser político
Pra parecer simpático
Não vim a esse mundo pra agradar
Ora bolas não se pode ser verdadeiro
Dizer o que se pensa é chato
Então serei chato até o dia de minha morte
Chega de falsidade, de querer agradar a todos
Quem agrada a todos está sempre mentindo e fingindo
Está sempre enganando alguém
Principalmente a ele mesmo
Pois não tem convicção do que pensa
Está sempre dizendo: “penso como você”
“Você está certo”, “sabe que você tem razão”
Na ausência do outro vai te dizer
“Ele está errado”
E depois te pedir
“Não diga que falei isso, pra não me comprometer”
Ora, me enojam os hipócritas
As coisas têm que ser ditas
Não para agradar ou desagradar
Mas para que a verdade seja sempre conhecida
Já joguei fora as tais oportunidades da vida
Mas não perdi a oportunidade de falar o que penso
Sempre falo o que me dá na telha
E sei que vou ouvir o que não desejo
Gosto de pessoas que falam na minha lata
Dos meus atos falhos, acho isso bom
As coisas têm que ser assim mesmo
As pessoas só falam a verdade quando têm raiva
Ser autêntico e verdadeiro passou a ser a exceção
Quando deveria ser a regra
Hoje há quem diga que
Uma mentira repetida e dita por muitos
Torna-se uma verdade inegável
Quem fala a verdade nos dias atuais
Não é “politicamente correto” é inconveniente
É visto e tratado como portadores
Do Câncer ou Lepra já foram tratados
Muitos não se aproximavam
E outros diziam: ele tem “a doença”
A verdade deveria ser um mal contagioso
Nasci com este mal
Estou doente e meu caso é terminal

KIKO AZEVEDO 27 / 08 / 2009

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

RECICLE

Faça amor, pratique amor.
O amor é singelo.
Verde, azul, vermelho,
Marrom e amarelo.
É reciclável, reaproveitável, retornável.
É rima rica, é rima nobre.
O amor é eterno.
Ah! O ódio, o ódio é fatal,
Não é plástico, vidro, papel,
Resto de comida, “madeira” ou metal.
É corrosivo, radioativo.
Rima com dor, com rancor e mau humor.
É dispensável e repulsivo.
É rima fraca, é rima pobre,
É finito.
O amor é céu, o ódio é inferno.
O amor é renovável
E pode ser cada vez maior e melhor.
Reduza o ódio e o rancor,
Use o bom humor, um denguinho,
Uma pitada de carinho e muito beijinho.
Transforme tudo em amor
E leve pro seu ninho.
O ódio é finito, o amor eterno.
O amor é céu o ódio inferno.
O amor é luz e doação.
O ódio é mesquinho e esbanja,
É escuridão.
É preto cinza e laranja.
Kiko Azevedo 07 / 2009

TEMPO

O tempo é um rosário de contas
Só se conta o que se viu.
É mais fácil se perceber a distância do tempo
Quando tivermos que contá-lo pro futuro.
Porque o tempo passado,
Parece que nunca existiu
Quando se está no presente.
Ficam apenas as lembranças,
O tempo, esse não conta.
Nem parece que demorou tanto pra chegar.
Contamos em horas as memórias de uma década,
Em uma hora, as histórias de um ano.
Num minuto a volta ao mundo,
Contamos um dia em segundos.

Kiko Azevedo 06 / 2009

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

SANGRIA DE AMOR

De tanto amar, o mar sangra
E deságua em meu peito
Que transborda.
E não há borda que contenha
A sangria deste amor
Que me inunda
De prazer e alegria.
O amor...
O amor, como a chuva
Molha o corpo
Lava a alma.
O barulho nas telhas
E o respingo
Faz dormir e me acalma.
Para amar
Mergulhei nas águas tranqüilas
Do lago do amor.
Pra me banhar e beber
De sua água doce e cristalina.
O meu coração
Rio em cheia de amor
Molha os campos.
Correm suas águas em minhas veias
A força desta enchente me carrega
E deixa nas ribanceiras
Feridas, fotos e lembranças.
Não dá pra segurar
É colher, e amar.

Kiko Azevedo 28 / 12 / 2003

terça-feira, 4 de agosto de 2009

PAÍS NOTA "SEM"

Nosso país foi aprovado, e é média “Sem”.
É sem mãe, é sem salário, mas tem político salafrário.
São os sem pai e os sem direitos, superfaturaram as obras dos prefeitos.
Sem agasalho e sem comida, e tem juiz vida bandida.
É sem teto e sem amor, é o celular e o grampo do senador.

O pobre é o sem razão, no futebol prende o cartola ou o ladrão.
É o sem lar e sem emprego, lá em Brasília é o político pelego.
Outro sem grana pra pagar a faculdade, é o congresso da impunidade.
É sem pesquisa na área da medicina, é político, é polícia, é propina.

Um sem cultura e outro sem casa, e a comida é o lixo da Ceasa.
É o sem terra e eu sem dinheiro, e o senador grileiro.
É sem escola, é sem merenda, e o trabalhador sem renda.
Sem segurança é a rotina, e mais de cem mortos naquela chacina.

É sem saúde e sem vacina, é a high society e a cocaína.
É político sem vergonha, e o presídio do disk maconha.
Muitos sem pão, e o povo sem esperança, é o coronel comandando a matança.
Nau sem rumo, país sem meta, se há alegria, a “culpa” é do poeta.

Kiko Azevedo 2003-08-13 

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

PONTO DE VISTA

Filhos da rua, filhos da luta.
A cada centavo uma disputa.
Filho sem pai,
Dorme no chão.
Filho sem mãe,
Tem como teto um papelão.
Filho de puta não tem barriga,
A cada pão uma briga.
Filho, um trapo o frio lhe suaviza.
Ganha um troco pra limpar o pára-brisa.
Vive na chuva e dorme na tempestade.
Olho, sigo em frente.
Ligo o ar, subo o vidro e digo pra mim:
Velho ou jovem, não importa a idade,
Isso passa, é só uma brisa.

Kiko Azevedo 02 / 03 / 2005

quinta-feira, 30 de julho de 2009

DIA DE BRANCO

Toco cru pegando fogo.

O sorriso da juíza,
E o filho do coronel.
Com a bênção do cardeal,
Mais um pobre vai pro céu.

Pedra, toga e papel.

Brincar, pra menino rico,
É queimar índio ou mendigo,
Matar bicha ou Manoel.

Índio nu pedindo socorro.

Livre o filho do juiz,
Mais um pobre no espeto.
Vai morrer mais um Galdino,
Pobre morre como inseto.

Pedra, paulada e papel.

Pro pára-choque a puta e a corda,
Engorda a conta do bacharel.
Indignação e vergonha do Bóris,
E a justiça foi pro beleléu.

Kiko Azevedo 27 / 08 / 2004

BRINQUEDO

Sonho de criança é um brinquedo,
E eu feito criança grande, apenas desejo,
Não quero um brinquedo caro, nem precisa ser tão raro.
Só quero um brinquedo seguro
Que brilhe no claro e acenda no escuro.

Quero um brinquedo
Que não funcione com pancada ou corda,
E sim com fricção.
E pra ele durar, tenha que brincar com carinho e atenção.
Pois o amor é brinquedo de encaixe.
Se lhe batem, quebra não aceita emenda.
Pois mesmo que cole,
Basta uma olhada para ver a fenda.


Kiko Azevedo / William Guedes  - 08 / 2003

terça-feira, 28 de julho de 2009

DESEJO

A distância vai se aproximando
Quando olho as imagens em minha mente
Te vejo bem perto
Dentro de meu peito consigo te sentir
Mesmo que meus olhos não te alcancem
Estás ao alcance de minha mão.
Os dias vão passando
O reencontro se avizinha
Voltarei a ti
E breve tocarei tua pele
Mesmo que de leve, invadirei tuas entranhas.
Quero sentir todos teus sabores
Desfrutar teus prazeres
Banhar-me e dormir em ti
Teu seio será meu abrigo eterno
Nele dormirei pra não mais deixá-la.


Kiko Azevedo 27 / 07 / 2009

sábado, 11 de julho de 2009

PONTO

Sirley prostituta,
Ora! o filho de corno e puta
Se diverte,
Xinga, cospe e chuta.
Trabalhadora, doméstica,
Sirley’s, Fabiane’s, Goreth’s, índios, travestis,
E as babás dos filhos de puta.
Pra Leandro, Rômulo, Lui ou Luiz.
Domésticas, prostitutas travestis e índios,
Não têm direitos civis.
Por que o filhinho bandido tem pai juiz.
Ponto de ônibus.
Ponto pra elas, chegarem as seis em ponto.
Se estiverem paradas, no ponto ou na rua
Fazem ponto com os travestis.
Se caminham em ruas desertas,
São alvos dos filhinhos de corno
Que lhes dão pontapés e pontos
No peito, rosto e nariz.



Kiko Azevedo 09 / 09 / 2007

sexta-feira, 22 de maio de 2009

A solidão é companheira exigente,
Que requer exclusividade.
Me isola na roda de amigos,
Teima em não me deixar.
Dorme comigo e me acorda,
Só pra me atormentar.
Oh, companheira egoísta!
Vai embora e me deixa trabalhar.
Vamos marcar nosso encontro,
Pra hoje à noite no bar.
E entre um chopp e outro,
Esperar o sono chegar.
Estás presente em meus sonhos,
E acordas no meu despertar.
Me segues na multidão,
Vais comigo a todo lugar.
Metade de mim está ausente,
És a metade que há.


Kiko Azevedo 05 / 09 / 2003

quinta-feira, 14 de maio de 2009

AMOR ELETRÔNICO

Amor eletrônico,
Amor cibernético
Envia e-mail e beijo internético.
Em tempo real,
O amor virtual.
Um amor passageiro.
Bem na minha tela,
Um amor de novela,
Sem vício e nem cheiro.
Amor de silício,
Medido em gigas.
Amor em silêncio
Sem corpos ou brigas,
Amor de teclado,
É um amor insípido
Concretizado
Só no cristal líquido.

Kiko Azevedo 27 / 07 / 2005

INSPIRAÇÃO

Não me cobre a estética.
Pois o verso do coração
Não se prende a métrica,
É pura inspiração.
Foge à frieza sintética,
Faz tremer a perna e suar a mão.
Quebra a barreira estética
Da poesia metódica e simétrica.
Não há rima rica,
Nem poesia nobre.
Se a inspiração é falsa,
Todo verso é pobre.
À inspiração poética,
Não cabe sintaxe,
Hermenêutica ou semântica.
Não segue corrente política,
Filosófica ou romântica.
A poesia viva e dinâmica,
Não é racional ou lógica.
Ultrapassa a gramática,
Não precisa de retórica.


Kiko Azevedo 09 / 09 / 2003

quarta-feira, 6 de maio de 2009

AVES E ROSAS

Aves ferem o coração da águia.
Não sei se é efeito especial, coisa de cinema...
Há rosas vermelhas na nuvem branca.
Chega a primavera e contamos as perdas,
O mundo caiu com as gêmeas.

Ave Césares! Aves de aço,
Ave Bush! Ave Osama! Ave Sadam!
Avestruzes!

Aves cortam o deserto,
E em golfadas vomitam o aço
Que fere as montanhas.
Há rosas vermelhas na nuvem amarela.
As gêmeas sumiram e entubaram o deserto.

Ave Césares! Aves de aço,
Ave Bush! Ave Osama! Ave Sadam!
Avestruzes!

Aves de aço que cruzam o Golfo,
E cobrem a noite com a luz amarela
Cuspindo na cara da espada da Assíria.
Há rosas vermelhas na nuvem negra.
Estão bebendo o sangue da Babilônia.

Ave Césares! Aves de aço,
Ave Bush! Ave Osama! Ave Sadam!
Avestruzes!

Aves escuras já rondam a floresta,
Mergulham nas águas,
O que querem elas?
Há rosas vermelhas no verde e amarelo!

Ave Césares! Aves de aço,
Ave Bush! Ave Osama! Ave Sadam!
Avestruzes!

Kiko Azevedo 10 / 10 / 2003