segunda-feira, 24 de agosto de 2009

TEMPO

O tempo é um rosário de contas
Só se conta o que se viu.
É mais fácil se perceber a distância do tempo
Quando tivermos que contá-lo pro futuro.
Porque o tempo passado,
Parece que nunca existiu
Quando se está no presente.
Ficam apenas as lembranças,
O tempo, esse não conta.
Nem parece que demorou tanto pra chegar.
Contamos em horas as memórias de uma década,
Em uma hora, as histórias de um ano.
Num minuto a volta ao mundo,
Contamos um dia em segundos.

Kiko Azevedo 06 / 2009

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

SANGRIA DE AMOR

De tanto amar, o mar sangra
E deságua em meu peito
Que transborda.
E não há borda que contenha
A sangria deste amor
Que me inunda
De prazer e alegria.
O amor...
O amor, como a chuva
Molha o corpo
Lava a alma.
O barulho nas telhas
E o respingo
Faz dormir e me acalma.
Para amar
Mergulhei nas águas tranqüilas
Do lago do amor.
Pra me banhar e beber
De sua água doce e cristalina.
O meu coração
Rio em cheia de amor
Molha os campos.
Correm suas águas em minhas veias
A força desta enchente me carrega
E deixa nas ribanceiras
Feridas, fotos e lembranças.
Não dá pra segurar
É colher, e amar.

Kiko Azevedo 28 / 12 / 2003

terça-feira, 4 de agosto de 2009

PAÍS NOTA "SEM"

Nosso país foi aprovado, e é média “Sem”.
É sem mãe, é sem salário, mas tem político salafrário.
São os sem pai e os sem direitos, superfaturaram as obras dos prefeitos.
Sem agasalho e sem comida, e tem juiz vida bandida.
É sem teto e sem amor, é o celular e o grampo do senador.

O pobre é o sem razão, no futebol prende o cartola ou o ladrão.
É o sem lar e sem emprego, lá em Brasília é o político pelego.
Outro sem grana pra pagar a faculdade, é o congresso da impunidade.
É sem pesquisa na área da medicina, é político, é polícia, é propina.

Um sem cultura e outro sem casa, e a comida é o lixo da Ceasa.
É o sem terra e eu sem dinheiro, e o senador grileiro.
É sem escola, é sem merenda, e o trabalhador sem renda.
Sem segurança é a rotina, e mais de cem mortos naquela chacina.

É sem saúde e sem vacina, é a high society e a cocaína.
É político sem vergonha, e o presídio do disk maconha.
Muitos sem pão, e o povo sem esperança, é o coronel comandando a matança.
Nau sem rumo, país sem meta, se há alegria, a “culpa” é do poeta.

Kiko Azevedo 2003-08-13 

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

PONTO DE VISTA

Filhos da rua, filhos da luta.
A cada centavo uma disputa.
Filho sem pai,
Dorme no chão.
Filho sem mãe,
Tem como teto um papelão.
Filho de puta não tem barriga,
A cada pão uma briga.
Filho, um trapo o frio lhe suaviza.
Ganha um troco pra limpar o pára-brisa.
Vive na chuva e dorme na tempestade.
Olho, sigo em frente.
Ligo o ar, subo o vidro e digo pra mim:
Velho ou jovem, não importa a idade,
Isso passa, é só uma brisa.

Kiko Azevedo 02 / 03 / 2005

quinta-feira, 30 de julho de 2009

DIA DE BRANCO

Toco cru pegando fogo.

O sorriso da juíza,
E o filho do coronel.
Com a bênção do cardeal,
Mais um pobre vai pro céu.

Pedra, toga e papel.

Brincar, pra menino rico,
É queimar índio ou mendigo,
Matar bicha ou Manoel.

Índio nu pedindo socorro.

Livre o filho do juiz,
Mais um pobre no espeto.
Vai morrer mais um Galdino,
Pobre morre como inseto.

Pedra, paulada e papel.

Pro pára-choque a puta e a corda,
Engorda a conta do bacharel.
Indignação e vergonha do Bóris,
E a justiça foi pro beleléu.

Kiko Azevedo 27 / 08 / 2004

BRINQUEDO

Sonho de criança é um brinquedo,
E eu feito criança grande, apenas desejo,
Não quero um brinquedo caro, nem precisa ser tão raro.
Só quero um brinquedo seguro
Que brilhe no claro e acenda no escuro.

Quero um brinquedo
Que não funcione com pancada ou corda,
E sim com fricção.
E pra ele durar, tenha que brincar com carinho e atenção.
Pois o amor é brinquedo de encaixe.
Se lhe batem, quebra não aceita emenda.
Pois mesmo que cole,
Basta uma olhada para ver a fenda.


Kiko Azevedo / William Guedes  - 08 / 2003

terça-feira, 28 de julho de 2009

DESEJO

A distância vai se aproximando
Quando olho as imagens em minha mente
Te vejo bem perto
Dentro de meu peito consigo te sentir
Mesmo que meus olhos não te alcancem
Estás ao alcance de minha mão.
Os dias vão passando
O reencontro se avizinha
Voltarei a ti
E breve tocarei tua pele
Mesmo que de leve, invadirei tuas entranhas.
Quero sentir todos teus sabores
Desfrutar teus prazeres
Banhar-me e dormir em ti
Teu seio será meu abrigo eterno
Nele dormirei pra não mais deixá-la.


Kiko Azevedo 27 / 07 / 2009

sábado, 11 de julho de 2009

PONTO

Sirley prostituta,
Ora! o filho de corno e puta
Se diverte,
Xinga, cospe e chuta.
Trabalhadora, doméstica,
Sirley’s, Fabiane’s, Goreth’s, índios, travestis,
E as babás dos filhos de puta.
Pra Leandro, Rômulo, Lui ou Luiz.
Domésticas, prostitutas travestis e índios,
Não têm direitos civis.
Por que o filhinho bandido tem pai juiz.
Ponto de ônibus.
Ponto pra elas, chegarem as seis em ponto.
Se estiverem paradas, no ponto ou na rua
Fazem ponto com os travestis.
Se caminham em ruas desertas,
São alvos dos filhinhos de corno
Que lhes dão pontapés e pontos
No peito, rosto e nariz.



Kiko Azevedo 09 / 09 / 2007

sexta-feira, 22 de maio de 2009

A solidão é companheira exigente,
Que requer exclusividade.
Me isola na roda de amigos,
Teima em não me deixar.
Dorme comigo e me acorda,
Só pra me atormentar.
Oh, companheira egoísta!
Vai embora e me deixa trabalhar.
Vamos marcar nosso encontro,
Pra hoje à noite no bar.
E entre um chopp e outro,
Esperar o sono chegar.
Estás presente em meus sonhos,
E acordas no meu despertar.
Me segues na multidão,
Vais comigo a todo lugar.
Metade de mim está ausente,
És a metade que há.


Kiko Azevedo 05 / 09 / 2003

quinta-feira, 14 de maio de 2009

AMOR ELETRÔNICO

Amor eletrônico,
Amor cibernético
Envia e-mail e beijo internético.
Em tempo real,
O amor virtual.
Um amor passageiro.
Bem na minha tela,
Um amor de novela,
Sem vício e nem cheiro.
Amor de silício,
Medido em gigas.
Amor em silêncio
Sem corpos ou brigas,
Amor de teclado,
É um amor insípido
Concretizado
Só no cristal líquido.

Kiko Azevedo 27 / 07 / 2005

INSPIRAÇÃO

Não me cobre a estética.
Pois o verso do coração
Não se prende a métrica,
É pura inspiração.
Foge à frieza sintética,
Faz tremer a perna e suar a mão.
Quebra a barreira estética
Da poesia metódica e simétrica.
Não há rima rica,
Nem poesia nobre.
Se a inspiração é falsa,
Todo verso é pobre.
À inspiração poética,
Não cabe sintaxe,
Hermenêutica ou semântica.
Não segue corrente política,
Filosófica ou romântica.
A poesia viva e dinâmica,
Não é racional ou lógica.
Ultrapassa a gramática,
Não precisa de retórica.


Kiko Azevedo 09 / 09 / 2003

quarta-feira, 6 de maio de 2009

AVES E ROSAS

Aves ferem o coração da águia.
Não sei se é efeito especial, coisa de cinema...
Há rosas vermelhas na nuvem branca.
Chega a primavera e contamos as perdas,
O mundo caiu com as gêmeas.

Ave Césares! Aves de aço,
Ave Bush! Ave Osama! Ave Sadam!
Avestruzes!

Aves cortam o deserto,
E em golfadas vomitam o aço
Que fere as montanhas.
Há rosas vermelhas na nuvem amarela.
As gêmeas sumiram e entubaram o deserto.

Ave Césares! Aves de aço,
Ave Bush! Ave Osama! Ave Sadam!
Avestruzes!

Aves de aço que cruzam o Golfo,
E cobrem a noite com a luz amarela
Cuspindo na cara da espada da Assíria.
Há rosas vermelhas na nuvem negra.
Estão bebendo o sangue da Babilônia.

Ave Césares! Aves de aço,
Ave Bush! Ave Osama! Ave Sadam!
Avestruzes!

Aves escuras já rondam a floresta,
Mergulham nas águas,
O que querem elas?
Há rosas vermelhas no verde e amarelo!

Ave Césares! Aves de aço,
Ave Bush! Ave Osama! Ave Sadam!
Avestruzes!

Kiko Azevedo 10 / 10 / 2003

domingo, 3 de maio de 2009

PALAVRA AUSENTE

A ausência da palavra é doída,
É doida a dor da falta da palavra.
Não falta em mim a palavra dor,
Falta a palavra,
Para falar da inspiração ausente.
Causa dor não poder escrever.
É sofrido não ter palavras para a dor.
Para expressar a angústia,
Da ausência de versos.
Falta sentido para exprimir o sentido.
É angustiante não poder rasgar o peito,
E puxar de dentro um poema.
Não quero uma obra prima,
Apenas versos que digam o que sinto.
Choro a dor da sequidão da fonte.
Apenas choro, choro e choro.
Pois os poetas também são homens, e choram.


Kiko Azevedo 09 / 12 / 2003

ESCREVER

Escrever é minha arte,
Faço isto a qualquer sorte.
Não faço pra agradar,
Pra ser belo ou ser forte.
A palavra é minha espada,
Minha vida, o meu norte.
Sua ausência é dolorosa,
Sua falta é a morte.


Kiko Azevedo 01/08/2004

TRIÂNGULO

Hoje eu estou aqui pra lhe dizer
Que não tiro um bom som dos instrumentos
Que pareço não ter sentimentos
Que não sei falar de amor
Sei que vejo as coisas de outro ângulo
Quando o assunto é viver
Sei que pareço diferente
Por tocar muito mal triângulo
E amar tanto música quanto gente
Me desculpa também por não ser
Tão perfeito como a maioria
Pois tem gente que ao acordar
Já sabe o que fazer do dia
Eu vou vivendo passo a passo
O que me der na telha faço
Não importa o que vão dizer

Kiko Azevedo 03 / 05 / 2009

sábado, 2 de maio de 2009

ORENY



Ri.
Pois
É,

Ri
Por
Opor-se
A
Chorar.
Ria

Por
Ser

Zé.
Por
Ser
Por
Si

A
Poesia.
Pois
É
Ria
À
Poesia.
Por-se-ia
Você
A
Rir?
Pois
É
Ria.
Ria

Ria.
Pois,
Rir
É

Poesia.

Kiko Azevedo 02 / 05 / 2009

sexta-feira, 1 de maio de 2009

INDULTO

Foi minha pena reduzida,
Pela conduta ao certo.
Liberdade provisória
E um trabalho a céu aberto.
Vem o natal e o ano novo,
Carnaval, futuro incerto.

Quero Natal, já! Hoje!
Não posso deixar pra amanhã.
Demora ônibus ou van,
Melhor fugir de avião.
Pra ter de volta meu povo,
Beijar d’novo meu chão.

Pátria minha, tô de volta,
Do alto vejo tua luz.
Fica pra trás Rio, Macaé,
Quissamã, Carapebus.

Não sou nascido de ti
Mas, sempre te amei de paixão.
Da Redinha a Ponta Negra,
da Esperança ao Cajueiro.
De janeiro a dezembro
Te amo de corpo inteiro.

Sou filho da Santa Cruz,
Do Inharé e do Cruzeiro.
Mas, em ti sou livre, Natal;
Deixo de ser prisioneiro.


Kiko Azevedo 29 / 01 / 2005

terça-feira, 21 de abril de 2009

TÍTULO DE PROPRIEDADE

Rápido a ordem de reintegração foi cumprida,
O local pareceu praça de guerra.
Pra especulação vai servir a terra,
No Brasil, vale mais a propriedade que a vida.

Rico usa influência da política,
Contra ele a justiça é lenta e lerda.
Os sem tudo morrem na mão da polícia,
Vida de pobre pra justiça é merda.

Cai Dorothy, depois Daniel,
É a floresta de Chico a chorar.
Mais uma força tarefa no papel,
E a matança quem é que vai Pará?

Bota os móveis quebrados no furgão,
Joga esse defunto nojento na vala.
A mulher atira palavras de ordem,
O Estado responde na bala.

Kiko Azevedo 17 / 02 / 2005

TIRO NO PEITO

Na estrada, que susto!
O Russo me acertou no peito.
O tiro veio como sempre te digo,
Acredite sempre em você.
Às vezes temos que olhar
Nosso próprio umbigo.

Mais uma curva,
Mudo de estação.
O dia é frio e silencioso.
Ouço o vôo do Ednard
Em seu Pavão Misterioso.

O tiro foi certeiro.
Se há dor
Não ligo.

Mais uma ultrapassagem,
E sigo pensando em você.
As placas me ultrapassam rapidamente.
Sintonizo melhor,
As Paralelas me enchem olhos e ouvidos.
Meu pensamento permanece.
Acredite em si mesma,
E deixe que eu siga contigo.


Kiko Azevedo 11 / 2006

HOJE NÃO TENHO NAVIOS

Hoje não tenho navios,
Hoje o mar se fez acima de mim
Com todas as suas relações mortais,
Trovões relâmpagos e coisas de Odin.
Mesmo assim o dia se fez mais bonito
Porque encontrei Kiko
Gente igual a mim.

Navego em mares cegos
Poesias eu deleto
Amores eu entrego
De mãos dadas ao deus dará.

Não importa o que trará o dia
Tormentas, tempestades, amores, sonhos ou dores.
Se tenho a segurança que todo encontro
Tem a possibilidade de festejar
A amizade, música e poesia.

Franklin Mário / Kiko azevedo