sexta-feira, 22 de maio de 2009

A solidão é companheira exigente,
Que requer exclusividade.
Me isola na roda de amigos,
Teima em não me deixar.
Dorme comigo e me acorda,
Só pra me atormentar.
Oh, companheira egoísta!
Vai embora e me deixa trabalhar.
Vamos marcar nosso encontro,
Pra hoje à noite no bar.
E entre um chopp e outro,
Esperar o sono chegar.
Estás presente em meus sonhos,
E acordas no meu despertar.
Me segues na multidão,
Vais comigo a todo lugar.
Metade de mim está ausente,
És a metade que há.


Kiko Azevedo 05 / 09 / 2003

quinta-feira, 14 de maio de 2009

AMOR ELETRÔNICO

Amor eletrônico,
Amor cibernético
Envia e-mail e beijo internético.
Em tempo real,
O amor virtual.
Um amor passageiro.
Bem na minha tela,
Um amor de novela,
Sem vício e nem cheiro.
Amor de silício,
Medido em gigas.
Amor em silêncio
Sem corpos ou brigas,
Amor de teclado,
É um amor insípido
Concretizado
Só no cristal líquido.

Kiko Azevedo 27 / 07 / 2005

INSPIRAÇÃO

Não me cobre a estética.
Pois o verso do coração
Não se prende a métrica,
É pura inspiração.
Foge à frieza sintética,
Faz tremer a perna e suar a mão.
Quebra a barreira estética
Da poesia metódica e simétrica.
Não há rima rica,
Nem poesia nobre.
Se a inspiração é falsa,
Todo verso é pobre.
À inspiração poética,
Não cabe sintaxe,
Hermenêutica ou semântica.
Não segue corrente política,
Filosófica ou romântica.
A poesia viva e dinâmica,
Não é racional ou lógica.
Ultrapassa a gramática,
Não precisa de retórica.


Kiko Azevedo 09 / 09 / 2003

quarta-feira, 6 de maio de 2009

AVES E ROSAS

Aves ferem o coração da águia.
Não sei se é efeito especial, coisa de cinema...
Há rosas vermelhas na nuvem branca.
Chega a primavera e contamos as perdas,
O mundo caiu com as gêmeas.

Ave Césares! Aves de aço,
Ave Bush! Ave Osama! Ave Sadam!
Avestruzes!

Aves cortam o deserto,
E em golfadas vomitam o aço
Que fere as montanhas.
Há rosas vermelhas na nuvem amarela.
As gêmeas sumiram e entubaram o deserto.

Ave Césares! Aves de aço,
Ave Bush! Ave Osama! Ave Sadam!
Avestruzes!

Aves de aço que cruzam o Golfo,
E cobrem a noite com a luz amarela
Cuspindo na cara da espada da Assíria.
Há rosas vermelhas na nuvem negra.
Estão bebendo o sangue da Babilônia.

Ave Césares! Aves de aço,
Ave Bush! Ave Osama! Ave Sadam!
Avestruzes!

Aves escuras já rondam a floresta,
Mergulham nas águas,
O que querem elas?
Há rosas vermelhas no verde e amarelo!

Ave Césares! Aves de aço,
Ave Bush! Ave Osama! Ave Sadam!
Avestruzes!

Kiko Azevedo 10 / 10 / 2003

domingo, 3 de maio de 2009

PALAVRA AUSENTE

A ausência da palavra é doída,
É doida a dor da falta da palavra.
Não falta em mim a palavra dor,
Falta a palavra,
Para falar da inspiração ausente.
Causa dor não poder escrever.
É sofrido não ter palavras para a dor.
Para expressar a angústia,
Da ausência de versos.
Falta sentido para exprimir o sentido.
É angustiante não poder rasgar o peito,
E puxar de dentro um poema.
Não quero uma obra prima,
Apenas versos que digam o que sinto.
Choro a dor da sequidão da fonte.
Apenas choro, choro e choro.
Pois os poetas também são homens, e choram.


Kiko Azevedo 09 / 12 / 2003

ESCREVER

Escrever é minha arte,
Faço isto a qualquer sorte.
Não faço pra agradar,
Pra ser belo ou ser forte.
A palavra é minha espada,
Minha vida, o meu norte.
Sua ausência é dolorosa,
Sua falta é a morte.


Kiko Azevedo 01/08/2004

TRIÂNGULO

Hoje eu estou aqui pra lhe dizer
Que não tiro um bom som dos instrumentos
Que pareço não ter sentimentos
Que não sei falar de amor
Sei que vejo as coisas de outro ângulo
Quando o assunto é viver
Sei que pareço diferente
Por tocar muito mal triângulo
E amar tanto música quanto gente
Me desculpa também por não ser
Tão perfeito como a maioria
Pois tem gente que ao acordar
Já sabe o que fazer do dia
Eu vou vivendo passo a passo
O que me der na telha faço
Não importa o que vão dizer

Kiko Azevedo 03 / 05 / 2009

sábado, 2 de maio de 2009

ORENY



Ri.
Pois
É,

Ri
Por
Opor-se
A
Chorar.
Ria

Por
Ser

Zé.
Por
Ser
Por
Si

A
Poesia.
Pois
É
Ria
À
Poesia.
Por-se-ia
Você
A
Rir?
Pois
É
Ria.
Ria

Ria.
Pois,
Rir
É

Poesia.

Kiko Azevedo 02 / 05 / 2009

sexta-feira, 1 de maio de 2009

INDULTO

Foi minha pena reduzida,
Pela conduta ao certo.
Liberdade provisória
E um trabalho a céu aberto.
Vem o natal e o ano novo,
Carnaval, futuro incerto.

Quero Natal, já! Hoje!
Não posso deixar pra amanhã.
Demora ônibus ou van,
Melhor fugir de avião.
Pra ter de volta meu povo,
Beijar d’novo meu chão.

Pátria minha, tô de volta,
Do alto vejo tua luz.
Fica pra trás Rio, Macaé,
Quissamã, Carapebus.

Não sou nascido de ti
Mas, sempre te amei de paixão.
Da Redinha a Ponta Negra,
da Esperança ao Cajueiro.
De janeiro a dezembro
Te amo de corpo inteiro.

Sou filho da Santa Cruz,
Do Inharé e do Cruzeiro.
Mas, em ti sou livre, Natal;
Deixo de ser prisioneiro.


Kiko Azevedo 29 / 01 / 2005

terça-feira, 21 de abril de 2009

TÍTULO DE PROPRIEDADE

Rápido a ordem de reintegração foi cumprida,
O local pareceu praça de guerra.
Pra especulação vai servir a terra,
No Brasil, vale mais a propriedade que a vida.

Rico usa influência da política,
Contra ele a justiça é lenta e lerda.
Os sem tudo morrem na mão da polícia,
Vida de pobre pra justiça é merda.

Cai Dorothy, depois Daniel,
É a floresta de Chico a chorar.
Mais uma força tarefa no papel,
E a matança quem é que vai Pará?

Bota os móveis quebrados no furgão,
Joga esse defunto nojento na vala.
A mulher atira palavras de ordem,
O Estado responde na bala.

Kiko Azevedo 17 / 02 / 2005

TIRO NO PEITO

Na estrada, que susto!
O Russo me acertou no peito.
O tiro veio como sempre te digo,
Acredite sempre em você.
Às vezes temos que olhar
Nosso próprio umbigo.

Mais uma curva,
Mudo de estação.
O dia é frio e silencioso.
Ouço o vôo do Ednard
Em seu Pavão Misterioso.

O tiro foi certeiro.
Se há dor
Não ligo.

Mais uma ultrapassagem,
E sigo pensando em você.
As placas me ultrapassam rapidamente.
Sintonizo melhor,
As Paralelas me enchem olhos e ouvidos.
Meu pensamento permanece.
Acredite em si mesma,
E deixe que eu siga contigo.


Kiko Azevedo 11 / 2006

HOJE NÃO TENHO NAVIOS

Hoje não tenho navios,
Hoje o mar se fez acima de mim
Com todas as suas relações mortais,
Trovões relâmpagos e coisas de Odin.
Mesmo assim o dia se fez mais bonito
Porque encontrei Kiko
Gente igual a mim.

Navego em mares cegos
Poesias eu deleto
Amores eu entrego
De mãos dadas ao deus dará.

Não importa o que trará o dia
Tormentas, tempestades, amores, sonhos ou dores.
Se tenho a segurança que todo encontro
Tem a possibilidade de festejar
A amizade, música e poesia.

Franklin Mário / Kiko azevedo

quinta-feira, 16 de abril de 2009

PAZ SE ESCREVE COM SANGUE

Quantas pombas brancas ainda iremos soltar?
E Danielas Peres ou Silva enterrar?
Quantas camisas brancas iremos usar?
Quantos Robertas ou Edilsons
Ao túmulo iremos levar?

Quantas faixas brancas ainda vamos carregar?
Quantas Lianas ou Felipes
Ainda vamos chorar?

Quantas vezes, a Paz
Apenas no papel ou pano teremos que levar?
De quantas passeatas pela vida vamos participar?
Quantas vezes nossa dor terá que calar?

Quanto sangue das mãos ainda teremos que limpar?
Quantas vezes “justiça”, “justiça”, “justiça”,
Ainda teremos que gritar?
E quantas vezes mais, não irão nos escutar?

Quantas viagens do 174 não irão terminar?
Pela vida de quantos filhos
Ainda teremos que implorar?

Quanta paz com sangue...
Alguém ainda vai ter que escrever?


Kiko Azevedo 24 / 11 / 2003

sábado, 11 de abril de 2009

A POESIA E A CIÊNCIA

Quem escreve vive a glória
De poder contar uma história
Bem real ou fictícia.
Como um louco da ciência
Usa lápis ou caneta
E o papel como proveta
Onde mistura as letras
Para sua experiência.

Com perícia, paciência e muita sabedoria,
Vai misturando aos poucos
O real e a fantasia.
Uns lhe chamam de simplório
E outros de sapiência.
O mundo é o laboratório,
E a vida é a matéria prima
Para sua experiência.

Entre uma poesia e um conto,
Ou um verso de cordel,
Diminui ou aumenta um ponto,
E derrama no papel,
O fruto de sua ciência.
Seja crônica ou suspense,
Não há quem o leia e não pense,
Este cabra é um grande artista
Dentro de sua ciência.

O escritor conhecido
Vive às vezes só do nome,
Mesmo que o seu trabalho,
Tenha pouca qualidade.
Mas se é desconhecido, coitado;
É triste a realidade,
Ou trabalha ou passa fome.
Vive da ajuda de amigos
Ou divina providência.

Embora o povo confesse,
Que conhece dele a obra,
Mas não conheça o homem.
Mesmo que alguém confesse,
Usando toda decência.
Este cabra é um grande artista.
Dentro de sua ciência.

Kiko Azevedo 23 / 12 / 2003

quarta-feira, 8 de abril de 2009

CAMPINA DA RIBEIRA

A beira rio, os ribeirinhos e os cangapés.
Vida, barco ao sabor dos ventos e marés.
- Óia o Aratú, o siri!
E o encontro dos países nos cabarés.

Ponto de partida e chegada, poente.
Ponte pra lugar nenhum.
- Óia o caranguejo, avacóra e atum!

Berço e lar de Cascudo,
Com seus governos e guardas.
Notícias na Pernambucana,
Dos gringos e suas fardas.
Cultura no Poly-Theama,
Purrichianas e farras.

Escuridão, sexta feira.
É a Campina a primeira a luzir.
- Canguleiro...
- Óia a pexêra.
E o Alferes a te possuir.

O vai e vem da quarentena, e o boêmio.
O Conde D’eu por aqui.
No leito onde deitou Ava Gardner,
Hoje a justiça a dormir.


Kiko Azevedo 24 / 10 / 2003